{"id":16,"date":"2023-11-30T16:15:00","date_gmt":"2023-11-30T19:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/2023\/11\/30\/sobre-a-importancia-de-uma-politica-para-memoria-digital\/"},"modified":"2023-11-30T16:15:00","modified_gmt":"2023-11-30T19:15:00","slug":"sobre-a-importancia-de-uma-politica-para-memoria-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/2023\/11\/30\/sobre-a-importancia-de-uma-politica-para-memoria-digital\/","title":{"rendered":"Sobre a import\u00e2ncia de uma pol\u00edtica para mem\u00f3ria digital"},"content":{"rendered":"<p>Sobre a import\u00e2ncia de uma pol\u00edtica para mem\u00f3ria digital<br \/>\nNeste momento paradigm\u00e1tico de chegada das aplica\u00e7\u00f5es de IA (intelig\u00eancia artificial) ao p\u00fablico em geral, \u00e9 fundamental e urgente o debate sobre a rela\u00e7\u00e3o da tecnologia digital com a mem\u00f3ria no contexto do patrim\u00f4nio cultural.<br \/>\nhttps:\/\/brasiliana.museus.gov.br\/sobre-a-importancia-de-uma-politica-para-memoria-digital\/<br \/>\n#museus<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/brasiliana.museus.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/memorias_perdidas.jpg\" alt=\"Imagem gerada no MidJourney, com o prompt: &quot;A man standing, viewing various images appearing in horizontal planes flying in multiple directions around him, as if his memories are fading away like computer files being sucked into a giant 5 1\/4-inch floppy disk.&quot;\" class=\"wp-image-5344482\" width=\"550\" height=\"307\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Imagem gerada no servi\u00e7o MidJourney, com o prompt: &#8220;um ser humano de p\u00e9 visualizando diversas imagens que se apresentam em planos horizontais que voam em m\u00faltiplas dire\u00e7\u00f5es ao seu redor, como se fossem suas mem\u00f3rias que v\u00e3o se apagando como arquivos de computador.<\/em>&#8220;<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Trinta anos ou mais j\u00e1 se v\u00e3o<\/strong> desde que a cultura entrou em processo de digitaliza\u00e7\u00e3o, o qual se torna cada vez mais intenso e omnipresente. Isto se d\u00e1 contando com uma infraestrutura realizada por empresas estrangeiras de tecnologia, e seguimos sem uma reflex\u00e3o s\u00e9ria no Brasil sobre a import\u00e2ncia de uma pol\u00edtica nacional de preserva\u00e7\u00e3o para a mem\u00f3ria digital do patrim\u00f4nio cultural brasileiro. No momento em que nos preparamos para mais um salto de paradigma tecnol\u00f3gico no ambiente digital, com a chegada das aplica\u00e7\u00f5es de IA (intelig\u00eancia artificial) ao p\u00fablico em geral, nos parece fundamental e urgente promover debate aprofundado sobre a rela\u00e7\u00e3o da tecnologia digital com a mem\u00f3ria no contexto do patrim\u00f4nio cultural.<\/p>\n<p>A ascend\u00eancia da m\u00eddia digital altera drasticamente algumas defini\u00e7\u00f5es estabelecidas de \u201cmem\u00f3ria cultural\u201d baseadas na l\u00f3gica dos arquivos impressos, que veio a concretizar o modelo de funcionamento de arquivos, bibliotecas e museus no s\u00e9culo 20. Em seu livro \u201c<em>Rogue Archives<\/em>\u201d, Abigail De Kosnik nos recorda que \u201cdesde o final do s\u00e9culo 19, a mem\u00f3ria \u2013 n\u00e3o a mem\u00f3ria individual privada, mas a mem\u00f3ria p\u00fablica, coletiva \u2013 foi dom\u00ednio no estado.\u201d J\u00e1 no s\u00e9culo 21, as pr\u00e1ticas da cultura digital impulsionam fluxos din\u00e2micos e imprevis\u00edveis que v\u00eam redefinindo e ampliando o conceito de maneira constante nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Especialmente a partir de 2002, com a chegada da web 2.0 (conhecida como a \u2018web de leitura e escrita\u2019), as institui\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria em escala global deixaram de cumprir seu papel de documentar e conservar o que \u00e9 reconhecido como a mem\u00f3ria cultural contempor\u00e2nea, para o acesso de gera\u00e7\u00f5es futuras. Na realidade, nos primeiros anos da cultura digital (90s), a pr\u00e1tica da preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria digital envolveu em sua maior parte indiv\u00edduos que n\u00e3o possuem forma\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias da informa\u00e7\u00e3o, e carecem de suporte institucional. A despeito do interesse em ascens\u00e3o por parte das institui\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o aos \u201cacervos digitais\u201d nos anos 2000, as pr\u00e1ticas associadas a acervos na cultura digital emergiram principalmente e de forma mais vigorosa entre amadores, como f\u00e3s, hackers, piratas e volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0 crescente demanda por \u201carquivamento\u201d em formato digital, a d\u00e9cada de 2000 viu surgir diversas modalidades de \u201cpublica\u00e7\u00e3o pessoal online\u201d e seus \u201ccontainers\u201d, como blogs, wikis, gerenciadores de conte\u00fado (CMSs) e reposit\u00f3rios digitais. Na segunda metade da d\u00e9cada, startups lan\u00e7aram numerosas iniciativas inovadoras para atrair usu\u00e1rios interessados em \u201cpostar\u201d seus conte\u00fados online, muitas vezes sem uma considera\u00e7\u00e3o detalhada pelos termos de uso aos quais estavam sujeitos. Os servi\u00e7os e suas startups foram ent\u00e3o rapidamente assimilados pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es da internet, o que resultou em monop\u00f3lios globais na disponibiliza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados culturais digitais.<\/p>\n<p>Para a gera\u00e7\u00e3o que acompanhou a chegada da web no Brasil a partir dos anos 90, e observou uma significativa revolu\u00e7\u00e3o no universo da comunica\u00e7\u00e3o nos anos 2000, \u00e9 dif\u00edcil compreender como toda a liberdade e equanimidade promovida pelo protocolo TCP\/IP veio a tornar-se algo completamente diferente nos anos 2010. O advento das mega plataformas digitais como Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp), Google (Orkut, YouTube, Android App Store), Apple (iPhone App Store), eX-Twitter, entre outras, reintroduziu no ambiente digital os poderosos intermedi\u00e1rios que pensamos haver transcendido ao migrar da cultura das ondas anal\u00f3gicas, com seus gatekeppers, para a Web \u2018aberta e descentralizada\u2019.<\/p>\n<p>Ao favorecer as plataformas e o conforto de suas funcionalidades bem resolvidas, perdemos a no\u00e7\u00e3o da necessidade de uma infraestrutura digital p\u00fablica, e esvaziamos o espa\u00e7o democr\u00e1tico da inernet aberta. As grandes corpora\u00e7\u00f5es que engoliram as startups tornaram-se monop\u00f3lios (1) nos quais o acesso a esses conte\u00fados passou a ser regulado por algoritmos propriet\u00e1rios e opacos, sem qualquer transpar\u00eancia, e (2) que n\u00e3o oferecem nenhuma garantia de preserva\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados no decorrer do tempo. Entendemos que o momento \u00e9 prop\u00edcio para que institui\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria e universidades assumam o seu papel na implementa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica de mem\u00f3ria digital.<\/p>\n<p>Para ilustrar o volume da perda, \u00e9 relevante recordar o caso do Orkut no Brasil. Criada pelo Google em 2002, a plataforma encerrou suas funcionalidades din\u00e2micas em 2014, mantendo seu conte\u00fado dispon\u00edvel para download at\u00e9 meados de 2016. O patrim\u00f4nio cultural ali gerado e armazenado deveria ter evolu\u00eddo para um acervo, servindo como fonte de pesquisa sobre a produ\u00e7\u00e3o de capital social e cultural de uma na\u00e7\u00e3o, e, principalmente, como registro da din\u00e2mica social de interconex\u00e3o em rede do povo brasileiro, que se destacou na \u00e9poca por seu car\u00e1ter \u00fanico, e por n\u00fameros de participa\u00e7\u00e3o estrondosos. Para se ter uma ideia da magnitude do que foi perdido, o &#8220;Arquivo de Comunidades do Orkut&#8221;, que abrangeu grupos p\u00fablicos de janeiro de 2004 a setembro de 2014, contou com mais de 51 milh\u00f5es de comunidades, 120 milh\u00f5es de t\u00f3picos e mais de 1 bilh\u00e3o de intera\u00e7\u00f5es&nbsp;<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/para-preservar-memoria-do-orkut-google-cria-arquivo-digital-de-comunidades-14090611\">*<\/a><\/p>\n<p>Caso o modelo de mem\u00f3ria p\u00fablica institucional, no qual o Estado desempenha um papel central, n\u00e3o mais atenda \u00e0s exig\u00eancias de registro e preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria cultural, agora predominantemente gerada e armazenada em meios digitais, torna-se crucial a formula\u00e7\u00e3o de projetos que explorem novos modelos de sustentabilidade e governan\u00e7a para acervos culturais p\u00fablicos, ou comuns. O cen\u00e1rio apresenta numerosas e complexas quest\u00f5es, assim como os desafios t\u00e9cnicos, sociais e pol\u00edticos associados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas experi\u00eancias e pr\u00e1ticas nesse contexto, mas precisamos de atitudes concretas e urgentes.<\/p>\n<p>A parceria do Ibram com as Universidades, no desenvolvimento e implementa\u00e7\u00e3o do projeto Tainacan, \u00e9 exemplo de estrat\u00e9gia com este objetivo. O&nbsp;<a href=\"http:\/\/tainacan.org\/\">Tainacan<\/a>&nbsp;\u00e9 uma ferramenta flex\u00edvel e poderosa baseada em WordPress, que permite a gest\u00e3o e a publica\u00e7\u00e3o de cole\u00e7\u00f5es digitais com a mesma facilidade de se publicar posts em blogs, mas mantendo todos os requisitos de uma plataforma profissional para reposit\u00f3rios. Oferecer esta ferramenta como possibilidade de autonomia para as institui\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria publicarem seus acervos digitais de maneira organizada e integrada na Internet constitui, em si, um passo estruturante na organiza\u00e7\u00e3o do campo dos acervos digitais de cultura no Brasil.<\/p>\n<p>Mas trata-se apenas de um come\u00e7o, um est\u00e1gio inicial no caminho para uma pol\u00edtica nacional. E somente uma pol\u00edtica nacional poder\u00e1 estabelecer a bases para um projeto sustent\u00e1vel que garanta a preserva\u00e7\u00e3o digital do que importa guardar na perspectiva do interesse publico.<\/p>\n<p>\u00c9 pertinente destacar que, no momento em que o poder p\u00fablico fomenta reflex\u00f5es sobre pol\u00edticas p\u00fablicas envolvendo Intelig\u00eancia Artificial (IA), ser\u00e3o as bases de dados que abrigam conte\u00fados textuais, audiovisuais, e seus metadados, a principal mat\u00e9ria prima para modelos de linguagem (LLMs) que potencializam servi\u00e7os como o ChatGPT. A organiza\u00e7\u00e3o dos acervos do patrim\u00f4nio cultural a partir de uma pol\u00edtica p\u00fablica, potencializa a cria\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de IA especializados em informa\u00e7\u00e3o cultural de interesse comum, e pode alavancar um novo campo para pesquisa e desenvolvimento com base na riqueza da diversidade cultural brasileira.<\/p>\n<p>O Ibram, com o lan\u00e7amento da \u2018Brasiliana Museus\u2019, almeja conceber e propor iniciativas que impulsionem as institui\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria a integrar arranjos coletivos para a organiza\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o digital do patrim\u00f4nio cultural brasileiro. Para 2024, o Ibram planeja explorar possibilidades de implementa\u00e7\u00e3o, em termos de arquitetura de rede para arquivamento web, de um framework t\u00e9cnico para preserva\u00e7\u00e3o digital de websites de museus. Ainda no tema da mem\u00f3ria digital, est\u00e1 previsto o lan\u00e7amento experimental de uma aplica\u00e7\u00e3o de rede social que comporte protocolos de preserva\u00e7\u00e3o e acessibilidade dos conte\u00fados postados, a ser ofertada como alternativa para os museus brasileiros dialogarem com seus p\u00fablicos online.<\/p>\n<p>Queremos abrir o di\u00e1logo sobre o tema com todos os interessados, e seguiremos postando atualiza\u00e7\u00f5es sobre estes e outros projetos do Ibram para o campo da cultura e da mem\u00f3ria digital, aqui neste espa\u00e7o.<\/p>\n<p class=\"nc-source-attribution\">Fonte original: <a href=\"https:\/\/brasiliana.museus.gov.br\/sobre-a-importancia-de-uma-politica-para-memoria-digital\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/brasiliana.museus.gov.br\/sobre-a-importancia-de-uma-politica-para-memoria-digital\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste momento paradigm\u00e1tico de chegada das aplica\u00e7\u00f5es de IA (intelig\u00eancia artificial) ao p\u00fablico em geral, \u00e9 fundamental e urgente o debate sobre a rela\u00e7\u00e3o da tecnologia digital com a mem\u00f3ria no contexto do patrim\u00f4nio cultural.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-16","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-museus"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/xemele.museus.gov.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}